Terra Preta Arqueológica

Sitio Hatahara com urnas da fase Manacapuru e terra preta antropógenica, circa 600 anos AC. Fotografia de Val Moraes – Projeto Amazônia Central

Terra fértil “construída” pelos antigos povos da Amazônia

Outros nomes:

terra-preta, terra-morena, terra-de-índio, TPI

Em inglês: Archaeological Dark Earth, Arquaeological Dark Earth, ADE

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Tópicos do artigo:

1. O que é terra preta?

2. Há onze mil anos

3. Há quatro mil anos

4. Há poucas dezenas de anos

5. Há centenas de anos

6. Em nossos dias

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1. Terra preta, ou terra preta de índio (TPI), é um tipo de solo escuro e fértil encontrado na Bacia Amazônica em antigos assentamentos das populações nativa pré-colombianas. Desde os primeiros cientistas e até em nossos dias, os teóricos de uma Amazônia selvagem e pouco habitada consideraram a terra preta como um capricho da natureza. Porém esse tipo de solo está sendo intensivamente estudado por uma nova leva de arqueólogo rebeldes e deve sua coloração ao elevado teor de carvão. Também entram na sua composição restos vegetais, ossos de animais, fezes e urina, e uma grande quantidade de cacos de cerâmica, o que a faz definitivamente ser de origem humana. É muito estável e permanece no solo por milhares de anos. A terra mulata é mais clara ou de cor acastanhada. É menos fértil da terra preta, mas é mais fértil do que a terra circunstante e pode parecer como uma etapa intermédia para se chegar a terra preta propriamente dita.     0468

2. Há onze mil anos, imaginamos sobrevoar uma floresta amazônica que não tem fim.  Numa clareira, a beira de um riacho, uma pequena aldeia de poucas famílias nômades esforça-se na tarefa diária da sobrevivência. Após um dia de caça e coleta de frutas silvestres reúnem-se em volta da fogueira central para preparar o alimento diário. No chão daquele pequeno mundo e nas suas redondezas acumulam-se os ossos e os resto de comida, cascas e caroços, o carvão e a cinza da fogueira, urina e fezes. Após um certo período, quando os recursos da área escasseiam, o líder do grupo decide mudar a aldeia. Assim acontece, por várias gerações, e eles seguem nas trilhas ancestrais, acumulando a memória dos antigos.

Diz a história oficial que esse foi a paisagem milenar da ocupação humana da região, não teve agricultura e também não teve cultura, apenas um povo selvagem lutando pela sobrevivência. Assim foi, dizem os sábios da academia, até a chegada dos europeus, quando a história oficial do continente começou. E assim é, ainda hoje, eles concluem: como são as aldeia indígena hoje, assim sempre foram nas épocas passadas.     0427

3. Há quatro mil anos, os descendentes daquele mesmo grupo humano, após vários retornos sobre o mesmo sítio, descobrem que os caroços da pupunheira da última visita são agora um bosque de palmeiras que crescem viçosas sobre o solo escuro, rico de matéria orgânica. As sementes de outras frutas coletadas em outras época, também brotaram e oferecem um alimento fácil. Eles aprendem a acumular os resíduos orgânicos na beira externa da aldeia. Os campos de cultivo crescem e assim a população. É o início de um novo ciclo histórico: a aldeia percebe que o lugar pode garantir seu sustento permanente e nasce a agricultura. Mais plantas são domesticadas e então eles vem aprimorando aquele solo riquíssimo  que faz as plantas prosperarem. As aldeias crescem ocupam mais território, agora eles tem mandioca, açai, buriti, castanhas, piquiá, tucumã… Eles tem até um complexo sistema de rituais, o que hoje chamamos de cultura.     0466

4. Há poucas dezenas de anos, naquele mesmo lugar dois possantes tratores arrastam uma corrente de aço a 50 metros um do outro. A corrente, entre as duas maquina vai derrubando tudo sem piedade. Em questão de minutos, milhares de anos de evolução são deitados ao chão. Uma quantidade extraordinária de animais, perdem de repente sua referência: não há mais ninho, não há mais alimento, não há mais nada. Para completar, segue um fogo aniquilador e tudo vira um deserto silencioso e apocalíptico.

Essa é a história atual de muito lugares similares a este: dizem que é o progresso. Milhares de hectares de floresta cedem o lugar aos campos de soja ou de capim. Toneladas de agrotóxicos são despejadas sobre a terra para aumentar a produção e eliminar as pragas. Soja e carne são destinados aos mercados internacionais, nada fica na Amazônia a não ser o veneno que contamina os rios, os peixes e seus habitantes.

Por ironia da sorte ou por algum plano misterioso, as terras deflorestadas deixam aparecem sinais incompreensíveis, enormes quadrados, círculos e outras figuras geométricas de até 300 metros, são geoglifos, mensagens de uma era remota.

Mas como? Os cientistas todos concordaram que a Amazônia não tinha como desenvolver uma civilização. A terra da floresta é extremamente lixiviada e totalmente inviável para agricultura… mas essas imponentes figura geométricas dizem o contrário.     0465

5. Há centenas de anos que as populações ribeirinhas e os caboclos da terra firme utilizam a terra preta de índio, derrubando, na prática, o mito de que os solos da região são pobres e impróprios para a agricultura. A terra preta é utilizada para o cultivo de subsistência, sem qualquer prática de manejo e o solo continua fértil.

Com o apoio da arqueologia e da geoquímica, o que se pretende agora é produzir a terra preta arqueológica. Os benefícios são muitos. A criação de uma “terra preta nova” impediria a utilização de sítios arqueológicos para o plantio de subsistência e ajudaria o pequeno agricultor, além de possibilitar a utilização desta terra em solos de baixa fertilidade, como o cerrado. (Dirce Kern)

Uma nova geração de pesquisador se embrenha no mato, deixando furiosos os acadêmicos tradicionais que do alto de suas cátedras resistem às evidências. Jovens pesquisadores, arqueólogos, antropólogos, agronomos, bioquímicos, etc. desafiam uma versão conveniente da história e a escrevem sobre novas bases: civilizações avançadas floresceram na Amazônia, a floresta virgem é, na verdade, uma “floresta cultural*”.     0467

6. Em nossos dias, esse tipo de solo é conhecido apenas pelos pesquisadores e alguns corajosos pioneiros, mas parece que pouco são os dão importância ao assunto, na Amazônia como no Brasil. Tudo que é de índio está associado ao preconceito vigente de pre-histórico e primitivo. Mas a terra preta além de ser uma descoberta genial para a humanidade é a resposta mais simples e eficiente aos problema de mudanças climáticas, entre outras coisas. Essas alterações dramáticas são provocadas pela extração de carbono do solo e emissão para a atmosfera, sendo que a produção da terra preta em larga escala criaria o efeito contrário, estocando de novo na terra o carbono que está no ar. E na terra, o carbono encontra o lugar mais estável para ficar e auxiliar a vida no planeta.

Em quanto no Brasil o incalculável valor da terra preta é negligenciado, mais pesquisas e aplicações florescem no exterior.

Veja os links em inglês e o artigo “Terra preta nova”.     0469

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Atualização mais recente: 5/9/2017 8:39:31 AM

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